Já sei. Vou colocar um texto do livro Fala Sério Amiga, da Thalita Rebouças que eu tô há horas pra colocar. Lá vai :
Ponto de Interrogação
Fim de sábado, pôr de sol bonito, clima agradável, horas no computador no quarto com a Alice... Precisava de algo gostoso para fazer aquele cenário perfeito, mais especificamente de uma coisa gelada entrando em contato com minhas papilas gustativas. Alice pareceu ler meus pensamentos e perguntou, iniciando um diálogo sem precedente em nossas vidas:- Sorvete?
-Com chocolate?
- E amêndoa?
- Muita calda de chocolate por cima?
- Ou de morango?
- Morango combina com baunilha e chocolate?
- Por que não cominaria?
-Sorvete do Bob's ou do McDonald's?
- Que diferença faz?
- Nenhuma, o dois fazem doer os dentes, né?
- Seus dentes doem com sorvete, Alice? Desde quando?
- Seus dentes não doem com sorvete?
- Os seus doem? Como? Por quê? Isso é normal? Isso pega?
- Por que os seus não doem?
- Por que eu sou fofa?
- Acha que eu vou levar essa resposta a sério, Malu?
- O que você queria que eu dissesse?
- Meu dente é feio?
- Quer mesmo que eu responda isso?
- Por que não?
- Quer que eu diga a verdade?
- Dá pra parar de suspense? É ou não é feio?
- Isso lá é pergunta que se faça?
- Feio e fresco, é isso que você acha e não quer me dizer, não é?
- Fresco? O certo não seria sensível?
- Dente sensível? Isso é um problema?
- E não é? Se não é problema é o quê, então? Dor não é problema?
- Tenho que ir a um médico? Será que é grave? Será que estou com alguma doença seriíssima?
- Quer parar de dizer bobagem?
- Você não se preocupa comigo?
- Já não disse que seu dente é só sensível??
- E feio?
- Por que você não faz um clareamento?
- Meus dentes são feios, sensíveis e encardidos? Você não tem nada mais animador para dizer?
- Seu pai não tem um amigo dentista?
- Você acha que eu vou pagar para sofrer no dentista?
- Você não vai ao dentista, Alice?
- Você vai?
- Meus dentes doem, por acaso?
- É porcaria ir ao dentista, sabia?
- Eu lá disse que não ia? Quem puxou esse assunto de dentista?
- Se não foi você, quem foi?
- Ai, Alice, vamos parar com isso?
- Se eu for ao dentista, será que ele vai cuidar direito de mim?
- Menina, existe outro profissional, que não um dentista, capaz de dar um jeito nos seus dentes
esquisitos?
- Esquisitos?
- Eu disse esquisitos?
- Malu, porque você está debochando? Não vê que estou preocupada com a situação?
- Dente é importante assim pra você?
- Dente não é importantíssimo pra todo mundo?
- Todo mundo quem, cara-pálida? Coração, fígado, e intestino não são muito mais importantes? O
que é um dente perto de um fígado? Tem coisa mais linda e importante que o fígado? E o
coração,então?
- Se eu tiver que arrancar todos os dentes, você vai comigo para apertar minha mão?
- Não sabe que eu desmaio vendo sangue? Porque você não chama a Duca?
- Porque não você?
- Se eu for, você me mostra como bota e tira a dentadura?
- Você vai querer mesmo que eu te ensine essa nojeira?
-Você não tem curiosidade de saber como é viver todos os dias da sua vida com uma dentadura te
incomodando a boca?
- Vamos ligar pra minha mãe e pedir para ela marcar logo uma consulta pra mim?
- Você vai se acostumar a ser banguela para sempre?
- Será que vai ser difícil?
- Promete uma coisa? Quando você se acostumar a ser uma menina desdentada, posso contar
pratodo mundo que você usa dentadura?
- Para me matar de vergonha?
- Tem algum mal nisso?
- Eu vou ser a única pré-adolescente do mundo a usar dentadura?
- Isso não tem cara de manchete de jornal?
- Eu vou virar uma aberração?
- Aberração famosa não é bom? Já imaginou você, mesmo desdentada, ganhando convites parafestas
e conhecendo os artistas todos?
- Você acha isso bom?
- Espetáculo não seria uma palavra melhor?
- Você tá delirando?
- Diz pros jornalistas que eu fui arrancar os dentes com você, Alice? Será que assim fico famosa? Já pensou que chique? Eu e você, celebridades instantâneas?
- Eu vou perder todos meus dentes com 13 anos e você acha isso bom?
- Posso ficar com um de recordação?
- Você não está percebendo o tamanho do meu drama? Não dá pra dizer alguma coisa que me deixe felizinha?
- Será que você vai aguentar essa vida banguela?
- Eu posso enforcar você, Malu?
- Vamos fazer uma festa de despedida dos seus dentes?
- Sério, posso enforcar você?
- Por que tanta agressividade, Alice?
- Você acha que eu tenho cabeça para pensar em festa no meio dessa tragédia dentária?
- Por que a gente tá falando assim?
- Assim como?
- Reparou que a gente não usou nenhum ponto, a não ser o de interrogação, para terminar as frases desse diálogo?
- Tá falando sério?
- E eu ia brincar com uma coisa dessas? Não sabe que o meu ponto preferido é o de exclamação?
- É?
- Ou é o ponto final?
- Não era você que gostava de reticências?
- Sabe que eu não me lembro?
- Como isso começou, Malu?
- Não tá muito engraçado?
- Será que a gente só vai conseguir falar assim daqui pra frente?
- E enlouquecer todo mundo?
- Não ia ser divertido?
- Você se imagina rindo com dentadura?
- Acha mesmo que posso ficar sem os dentes?
- Ficar sem os dentes e se tornar a menina mais esquisita do mundo? Acho. Ufa! Não usei o ponto de interrogação. Que alívio. Essa conversa não estava te irritando?
- Você começou de novo, Malu?
- Começei o quê?
- A só falar com interrogação?
- Isso não está te irritando?
- Pode parar?
-Por que você não para?
- Quer que eu vá embora?
- Acha melhor?
- A gente se fala mais tarde?
- Eu te ligo?
- Ás oito, na hora do jantar?
- Pode ser oito e quinze?
- Por que não?
Alice saiu voada do meu quarto. Será que estava tão horrorizada como eu? Estranho aquele diálogo... Muito estranho....
Melhor ligar para o médico?, pensei. Que nada, tinha uma opção muito melhor:
- Manhêêê! Vem aqui, por favor?
Contei para a minha mãe o drama da interrogação doida. estava em busca de carinho, compreensão, um pouco de conversa sem esse ponto insistente, uma palavra amiga, que só as mães sabem dar:
- Maria de Lourdes, você acha que eu não tenho mais nada a fazer a não ser pensar nessa maluluquice de "mundo bizzaro da interrogação?
- Vai me deixar aqui sozinha? Não acha que eu e a Alice estamos ficando malucas?
Ela já tinha ido embora do quarto, com uma batida de porta equivalente a mil pontos de exclamação.
FIM!
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