Como eu prometi!

Gente, lembram que eu disse que quando o blog chegasse a 10.000 acessos eu faria uma Super Postagem?? Pois é, chegou aos 10.000 e agora tenho que quebrar a cabeça pra fazer alguma coisa legal.
Já sei. Vou colocar um texto do livro Fala Sério Amiga, da Thalita Rebouças que eu tô há horas pra colocar. Lá vai :


Ponto de Interrogação

Fim de sábado, pôr de sol bonito, clima agradável, horas no computador no quarto com a Alice... Precisava de algo gostoso para fazer aquele cenário perfeito, mais especificamente de uma coisa gelada entrando em contato com minhas papilas gustativas. Alice pareceu ler meus pensamentos e perguntou, iniciando um diálogo sem precedente em nossas vidas:


- Sorvete?


-Com chocolate?


- E amêndoa?


- Muita calda de chocolate por cima?


- Ou de morango?


- Morango combina com baunilha e chocolate?


- Por que não cominaria?


-Sorvete do Bob's ou do McDonald's?


- Que diferença faz?


- Nenhuma, o dois fazem doer os dentes, né?


- Seus dentes doem com sorvete, Alice? Desde quando?


- Seus dentes não doem com sorvete?


- Os seus doem? Como? Por quê? Isso é normal? Isso pega?


- Por que os seus não doem?


- Por que eu sou fofa?


- Acha que eu vou levar essa resposta a sério, Malu?


- O que você queria que eu dissesse?
- Meu dente é feio?


- Quer mesmo que eu responda isso?


- Por que não?


- Quer que eu diga a verdade?


- Dá pra parar de suspense? É ou não é feio?


- Isso lá é pergunta que se faça?


- Feio e fresco, é isso que você acha e não quer me dizer, não é?


- Fresco? O certo não seria sensível?


- Dente sensível? Isso é um problema?


- E não é? Se não é problema é o quê, então? Dor não é problema?


- Tenho que ir a um médico? Será que é grave? Será que estou com alguma doença seriíssima?


- Quer parar de dizer bobagem?


- Você não se preocupa comigo?


- Já não disse que seu dente é só sensível??


- E feio?


- Por que você não faz um clareamento?


- Meus dentes são feios, sensíveis e encardidos? Você não tem nada mais animador para dizer?


- Seu pai não tem um amigo dentista?


- Você acha que eu vou pagar para sofrer no dentista?


- Você não vai ao dentista, Alice?


- Você vai?


- Meus dentes doem, por acaso?


- É porcaria ir ao dentista, sabia?


- Eu lá disse que não ia? Quem puxou esse assunto de dentista?


- Se não foi você, quem foi?


- Ai, Alice, vamos parar com isso?


- Se eu for ao dentista, será que ele vai cuidar direito de mim?


- Menina, existe outro profissional, que não um dentista, capaz de dar um jeito nos seus dentes
esquisitos?


- Esquisitos?


- Eu disse esquisitos?


- Malu, porque você está debochando? Não vê que estou preocupada com a situação?


- Dente é importante assim pra você?


- Dente não é importantíssimo pra todo mundo?


- Todo mundo quem, cara-pálida? Coração, fígado, e intestino não são muito mais importantes? O
que é um dente perto de um fígado? Tem coisa mais linda e importante que o fígado? E o
coração,então?


- Se eu tiver que arrancar todos os dentes, você vai comigo para apertar minha mão?


- Não sabe que eu desmaio vendo sangue? Porque você não chama a Duca?


- Porque não você?


- Se eu for, você me mostra como bota e tira a dentadura?


- Você vai querer mesmo que eu te ensine essa nojeira?


-Você não tem curiosidade de saber como é viver todos os dias da sua vida com uma dentadura te
incomodando a boca?


- Vamos ligar pra minha mãe e pedir para ela marcar logo uma consulta pra mim?


- Você vai se acostumar a ser banguela para sempre?


- Será que vai ser difícil?


- Promete uma coisa? Quando você se acostumar a ser uma menina desdentada, posso contar
pratodo mundo que você usa dentadura?


- Para me matar de vergonha?


- Tem algum mal nisso?


- Eu vou ser a única pré-adolescente do mundo a usar dentadura?


- Isso não tem cara de manchete de jornal?


- Eu vou virar uma aberração?


- Aberração famosa não é bom? Já imaginou você, mesmo desdentada, ganhando convites parafestas
e conhecendo os artistas todos?


- Você acha isso bom?


- Espetáculo não seria uma palavra melhor?


- Você tá delirando?


- Diz pros jornalistas que eu fui arrancar os dentes com você, Alice? Será que assim fico famosa? Já pensou que chique? Eu e você, celebridades instantâneas?


- Eu vou perder todos meus dentes com 13 anos e você acha isso bom?


- Posso ficar com um de recordação?


- Você não está percebendo o tamanho do meu drama? Não dá pra dizer alguma coisa que me deixe felizinha?

- Será que você vai aguentar essa vida banguela?

- Eu posso enforcar você, Malu?

- Vamos fazer uma festa de despedida dos seus dentes?

- Sério, posso enforcar você?

- Por que tanta agressividade, Alice?

- Você acha que eu tenho cabeça para pensar em festa no meio dessa tragédia dentária?

- Por que a gente tá falando assim?

- Assim como?

- Reparou que a gente não usou nenhum ponto, a não ser o de interrogação, para terminar as frases desse diálogo?

- Tá falando sério?

- E eu ia brincar com uma coisa dessas? Não sabe que o meu ponto preferido é o de exclamação?

- É?

- Ou é o ponto final?

- Não era você que gostava de reticências?

- Sabe que eu não me lembro?

- Como isso começou, Malu?

- Não tá muito engraçado?

- Será que a gente só vai conseguir falar assim daqui pra frente?

- E enlouquecer todo mundo?

- Não ia ser divertido?

- Você se imagina rindo com dentadura?

- Acha mesmo que posso ficar sem os dentes?

- Ficar sem os dentes e se tornar a menina mais esquisita do mundo?  Acho. Ufa! Não usei o ponto de interrogação. Que alívio. Essa conversa não estava te irritando?

- Você começou de novo, Malu?

- Começei o quê?

- A só falar com interrogação?

- Isso não está te irritando?

- Pode parar?

-Por que você não para?


- Quer que eu vá embora?

- Acha melhor?

- A gente se fala mais tarde?

- Eu te ligo?

- Ás oito, na hora do jantar?

- Pode ser oito e quinze?

- Por que não?

Alice saiu voada do meu quarto. Será que estava tão horrorizada como eu? Estranho aquele diálogo... Muito estranho....
Melhor ligar para o médico?, pensei. Que nada, tinha uma opção muito melhor:

- Manhêêê! Vem aqui, por favor?

Contei para a minha mãe o drama da interrogação doida. estava em busca de carinho, compreensão, um pouco de conversa sem esse ponto insistente, uma palavra amiga, que só as mães sabem dar:

- Maria de Lourdes, você acha que eu não tenho mais nada a fazer a não ser pensar nessa maluluquice de "mundo bizzaro da interrogação?

- Vai me deixar aqui sozinha? Não acha que eu e a Alice estamos ficando malucas?

Ela já tinha ido embora do quarto, com uma batida de porta equivalente a mil pontos de exclamação.



FIM!

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